28.3.10

CONTO DE UM FIM DE TARDE DE VERÃO

Apesar de, à superfície, a ondulação se mostrar fraca, ele sabia da força da corrente subjacente. Sentia-a nos seus ossos, no seu estômago. Se se deixasse ir, encontrar-se-ia rapidamente muito afastado de terra. Demasiado afastado de terra. Se tentasse lutar, por outro lado, rapidamente ficaria sem forças para regressar.
Toda uma vida a tomar decisões o avisava para a premência da opção. E, no entanto, estava-se tão bem ali... O melhor lugar da casa, primeira plateia, lugares de orquestra. Era tão mais fácil não reagir.
E porque voltar para terra? Para a sua empresa de sucesso, a sua esposa de sonho, os seus automóveis e casas? Claro. Mas nada disso lhe pode dar esta paz, pois não? E a brisa morna, nunca mais sedosa, nunca mais tépida? A sua mão bordejou a superfície da água. Et tu, Brutus?
O Sol, no final da sua descida diária para o horizonte, já não queimava. Quem sentiria a sua falta? A sua esposa sobreviveria, já não dependia só dele. A sua esposa, com a sua carreira, a sua beleza, voltaria a ser feliz. Jarbas, o seu companheiro de tantas patas? Sim. Definitivamente, sim.
Uma pequena onda se levantou. Um ligeiro ar frio o arrepiou. Uma nuvem tapou o Sol. Ao longe, Jarbas ladrava. Só tu me entendes, não é? Como posso voltar, agora? A velha técnica: paddle. Dar aos braços, na direcção de terra.
Afinal não era demasiado difícil. A praia ficava cada vez mais próxima, agora ouvia o seu ladrar muito bem, entre a rebentação. Uma figura feminina esbracejava, reconheceu-a. O Oceano parecia agora querer expulsá-lo, rejeitado.
Quase lá, sentindo a prancha acelerar, acelerou também a braçada. No momento certo, que os seus músculos bem conheciam, levantou-se. Quando acabasse a onda, teria de saltar e ficar de pé. As forças, no final da tarde, não o convidavam a voltar. Jarbas, por outro lado, insistia em brincar.
No meio da espuma, agarrou a prancha.Um sorriso acolhia-o agora na areia, acompanhando o rafeiro. Quente, convidativo. Olhou, uma última vez, para trás. Como parecia difícil entrar nele. Porque o fazia repetidamente, trazendo uma prancha enorme para a praia, vestindo o fato, voltando a arrumar tudo?
A água tépida, a brisa morna, o Sol aconchegante, a solidão feliz. Sim, esses eram bons motivos para entrar na água fresca, enfrentar as paredes de água, mobilizar o seu corpo, com o Sol ainda a pique, queimando.
Nunca se recorda exactamente do que se passa durante o tempo em que está a apanhar ondas, regressando depois. Apenas o que custa entrar e, depois, o esforço que é sair. Jarbas, agora confiante, avançara na água. Barbie prefere não se molhar. Azar, vou abraçá-la.
Começo a sentir o peso de estar fora de água. Agora já só me molha o tornozelo. Sinto a areia nos pés, uma ou outra concha. Barbie tenta beijar-me sem se molhar mas goro-lhe o objectivo. Sabe bem voltar.
Barbie e Jarbas brincam agora. Volto-me para trás, pouso a prancha, espetando a ponta na areia molhada. O melhor lugar da casa, vendo toda a extensão da rebentação, ouvindo o seu som em stereo, dolby surround e tudo o mais.
Fixamente, fito para além da rebentação, onde as ondas não são altas, onde sentimos a corrente no corpo. Por essa sensação, todo o esforço é válido. A dúvida de voltar ou não para terra faz-me sentir vivo. Mais do que a felicidade terrestre, a incerteza marinha.
Barbie acorda-me do sonho. Outro dia, outras ondas. Por agora, a praia parece-me um óptimo local. Vamos lá ao bar do Chico, comamos e bebamos com os amigos. O Verão não vai durar todo o ano...

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